Avaliar como quem escuta: entre documentação e reflexão


A Documentação

Durante os próximos tempos, trocamos os materiais por palavras. Não porque o trabalho abrande, mas porque há momentos em que é preciso parar para pensar com mais vagar. Sabemos que muitas educadoras e professores que nos acompanham carregam consigo o desejo de fazer melhor, de compreender mais fundo, de dar sentido ao quotidiano pedagógico — e é a esse desejo que queremos responder agora. Em vez de novos materiais partilharemos pequenos textos de reflexão e bibliografia que são como sementes lançadas ao pensamento, para serem lidas sem pressa e acolhidas com liberdade.

Começamos por um tema que nos é muito caro: a documentação pedagógica e os momentos de avaliação. Nesta altura do ano, a palavra avaliação reaparece em muitos contextos educativos. Surge, por vezes, com o peso de uma exigência externa, como se se tratasse de fechar ciclos, quantificar experiências ou responder a um calendário. Mas, à luz da abordagem de Reggio Emilia — e na voz clara de Carla Rinaldi — avaliar é antes de tudo um acto ético de escuta. Não se trata de medir, mas de compreender. Não de encerrar, mas de dar continuidade à aprendizagem.

A documentação, neste sentido, não é um arquivo do que já passou. É um gesto vivo que alimenta o diálogo pedagógico: entre o adulto e a criança, entre os colegas, entre a escola e a comunidade. Avaliar, quando nasce da documentação, deixa de ser um juízo e torna-se numa narrativa: aberta, plural, construída com os outros. Como escreve Rinaldi, “documentar é tornar visível o processo de aprendizagem; avaliar é dar-lhe sentido.”

Para nós, os momentos de avaliação são pontes — não muros nem conclusões. Pontes que ligam os saberes que fomos construindo ao longo do tempo com as observações do quotidiano, as evidências produzidas pelas crianças e as expectativas presentes nas OCEPE. Quando nos sentamos com as famílias e partilhamos essas leituras, percebemos, muitas vezes, como as suas expectativas coincidem com as nossas - ou como se afastam. Esta escuta mútua, que acontece nos encontros e se torna visível no acto de escrever, revela muito do nosso conhecimento sobre a criança e o seu desenvolvimento ao longo do ano. Avaliar, neste sentido, é narrar com responsabilidade e intenção aquilo que vimos crescer, aquilo que acompanhámos de perto, aquilo que desejamos continuar a cultivar.

Sabemos, contudo, que nem sempre é possível levar a cabo essa missão como desejaríamos. Muitas vezes, somos puxados em várias direcções — entre tarefas, urgências, solicitações institucionais — e o tempo real para documentar, e sobretudo para discutir em equipa, torna-se escasso. É importante reconhecê-lo sem culpa, mas com consciência. Porque a documentação, para ser significativa, precisa de tempo, de atenção e de partilha. E quando estes tempos nos são negados, torna-se ainda mais essencial defendê-los — mesmo que em pequenas brechas — como espaços de sentido e não como mais uma exigência.

Mesmo os livretos que vamos partilhando convosco, ou as nossas pequenas publicações, são, no fundo, documentação vivida. Fragmentos que nasceram do quotidiano e foram colados com cuidado — pedaço a pedaço — para darem corpo a uma memória comum, para guardarem a complexidade da infância e do gesto pedagógico. Estes momentos recolhidos não são registos estáticos: são trampolins para novos voos, para novas perguntas, para um aprofundamento constante da prática. Porque documentar é também isso — reconhecer no que já foi vivido o impulso para o que ainda está por vir.

Para quem desejar aprofundar estas reflexões, sugerimos a leitura do texto de Carla Rinaldi, Relation Between Documentation and Assessment, disponível para download gratuito. Um documento breve, claro e provocador — ideal para reler com tempo, marcando sublinhados e levantando perguntas.

Relation-Between-Documentation-and-Assessment-CARLA-RINALDI.pdf

Aqui Rinaldi diz-nos que as crianças são capazes de desenvolver teorias — explicações satisfatórias que podem partilhar com os outros como um ponto de vista. Uma teoria é muito mais do que uma ideia: deve ser agradável e convincente, útil e capaz de satisfazer as nossas necessidades intelectuais e estéticas. A teoria é uma expressão da nossa visão sobre as coisas e sobre a vida. Por isso, as teorias precisam de ser partilhadas — não só para ganhar uma perspetiva ética, mas como elemento indispensável para a aprendizagem e para a compreensão.

As teorias que as crianças elaboram têm de ser comunicadas a outros, usando todas as linguagens que conhecemos, para que possam existir. Esta é uma das raízes da pedagogia da escuta e da documentação como escuta visível, partindo da ideia de que as crianças conseguem construir teorias para explicar a vida. Esta atitude deve ser preservada como essencial para o nosso desenvolvimento enquanto seres humanos.

Por entendermos que a nossa prática é, ela própria, um gesto de escuta profunda, dedicamo-nos a escrever e refletir sobre a documentação. No contexto da escola na natureza que somos, esta escuta ganha formas múltiplas e sensíveis: são as paredes que acolhem desenhos e descobertas, os diários que guardam memórias e hipóteses, os portfolios que colecionam as produções das crianças — todos estes espaços são vozes silenciosas, mas potentes, dessa escuta visível. Documentar é dar corpo e cor à aprendizagem que acontece em contacto com o mundo natural, tornando palpável o pensamento das crianças e a sua capacidade de elaborar teorias sobre a vida. É, em última análise, uma maneira de manter vivo o diálogo entre a infância, o adulto e o ambiente que os envolve.

Assim deixo-vos algumas questões para pensar (e sentir) a avaliação:

  • Que lugar ocupa a criança na avaliação que sou chamada a fazer? Está presente com a sua voz, com os seus processos, com os seus tempos?
  • A tipologia de avaliação que me é pedida permite-me representar o que realmente valorizo nas aprendizagens das crianças?
  • O que me inquieta ou me limita nas formas de avaliação que tenho de preencher?

Sabemos também que nem sempre é possível participar nas formações, webinars ou workshops que vão surgindo ao longo do ano. Por isso, vamos disponibilizando algumas gravações, para que possam aceder a elas com calma, de forma consciente e reflexiva. Acreditamos que a verdadeira formação é aquela que transforma o olhar, que provoca o questionamento e que abre espaço para repensar a prática pedagógica. Não se trata de acumular conhecimento, mas de construir sentidos — e este processo precisa do tempo e do ritmo de cada um.

Assim entre julho e agosto disponibilizamos os webinares: "Observação e escuta na documentação"; "Documentação na creche"; "Diário de Bordo"; "Diário de Grupo".

Os nossos livretos estão disponíveis para aquisição em formato físico enviado pelo correio.

Deixo convosco um feedback que nos encheu o coração "

"Olá Ana Que E-book maravilhoso! É mesmo poético em toda a sua dimensão e essência. Consegues sempre de forma clara e organizada, surpreender-me com a beleza da tua prática e a forma como valorizas a criança e desenvolves o olhar das mesmas sobre si próprias nos projetos que desenvolves. Obrigada pela partilha e por podermos acompanhar todo o processo desenvolvido e o modo como exploras as áreas de conteúdo sempre numa dimensão holística. Amei! Todo o cuidado, a estética e a fundamentação associada são de uma enorme grandeza! Fico sem palavras perante a qualidade e imensidão do teu trabalho. Grata por te conhecer e acompanhar és para mim uma verdadeira inspiração!" Isabel

Até para a semana,

Ana

Passos de Gigante

Todos os nossos produtos podem ser solicitados por email para passos.e.gigante@gmail e adquiridos através de MBWAY ou Transferência bancária.

Read more from Passos de Gigante

Mãos que falam A linguagem não-verbal nos primeiros dias Loja Online Os primeiros dias são sempre um tempo sensível, marcado por descobertas, inseguranças e novos vínculos. Para nós, observar é um gesto essencial: é através da escuta atenta e do registo cuidadoso que conseguimos compreender como cada criança vive o Inserimento, quais os sinais de confiança, as necessidades de apoio e os modos de participação no grupo. As grelhas de observação que preparamos para este início de ano não são...

Come um arco-íris Loja Online Nos primeiros dias damos especial atenção à comida enquanto construtor social das relações. Para apoiar estas conversas e descobertas, criámos materiais com fotografias de alimentos que nos permitem não só falar sobre a comida, mas também identificar e nomear alimentos, contar histórias pessoais divertidas, participar em leituras de livros e partilhar as escolhas e gostos alimentares de cada um. Faz parte igualmente da rotina do nosso quotidiano, os trabalhos na...

preparar o ano O início de um novo ano é sempre mais do que uma data no calendário. É o momento em que abrimos a porta (física e simbólica) para receber crianças e famílias no território da escola. Loja Online "Cada entrada na escola é uma travessia" Loris Mallaguzzi Chamamos Inserimento a este processo de chegada. Ele não se limita a “adaptar” a criança ao espaço: procura criar relações de confiança, segurança e pertença, que sustentem toda a experiência educativa. Refletir sobre o...